sexta-feira, 22 de junho de 2018

SOUL

SOUL

Não perdi o medo
pareceu que sim,
não é?

É que eu só parei
de esconder;
desisti do segredo.

Depois de soltar
travas e correntes
                nós
         que impediam
a chegada e o presente
desisti de mais do meio;



Pareço indiferente,
    pareço menos 
do que o que ficou,
    sou mais 
do que o que restou.


Só que não perdi o medo
às vezes parece que sim
                      que soprei
                   e dispersou
              que abracei 
          e dançou
que ventei
         e acompanhou.








Pareço mesmo
menos do que o que ficou

E fiquei sendo mais

do que o que restou

            Nada sobra
porque sou o que estou.













(Anita Coutinho)

domingo, 4 de março de 2018

Jornal

JORNAL 

Te contei um segredo 
              no dia seguinte 
estava no jornal 
publicado na primeira folha 
com letras em diagonal: 
            “ O segredo” 

logo abaixo o subtítulo: “Desculpe não ter guardado” 

Eu 
comprei o jornal 
                e só para garantir 
                           guardei 
no meu arquivo pessoal. 






Anita Coutinho. 

Sombra

SOMBRA

Tem medo de olhar para ela
só porque ela te olha de lá
e te conhece melhor do que eu
melhor do que qualquer um
que já passou pelo seu caminho
e nem percebeu.

Acha que ela é um risco
e que te ameaça
         te assombra
                  envergonha?

Ela é o início
            daquilo que te falta
              e você nem sonha.

Tem medo dela
te assombrar de dia
               naquele dia
que você não pode errar.

Se assusta porque ela ri de você
Não te espera,
nem te deixa aterrizar. 

Você tem medo dela
porque nunca chamou para dançar.


Sombra é para refrescar
         trazer  trégua
   hora de descansar
           olhar
sem tanta claridade.

Clareza demais 
é ingenuidade.

Se você tem medo dela,
              essa sombra,
          logo ela,
             dona de tanta verdade,
talvez não mereça sua ajuda
talvez ainda não esteja na idade.





Anita Coutinho


Medusa



Como vou conseguir mostrar
             o que brilha atrás 
                        do escuro 
que trago no meu olhar
              sem te rasgar
todas as palavras
         bonitas de se falar?

Não vai dar para usar
       o que é bom de usar.
Nem é fácil espiar
             o que não tenho 
            e guardo longe,
o que é negro
        e não se esconde
     de tão perto que está
não dá para alcançar.


Se você conhecer
o que mora no breu 
          deste olhar

não vai querer ficar
          vai petrificar
por dentro 
            e por fora.

   Vai congelar,
Vai pedir para ir embora.
                Pois vá!





Guardo uma Medusa 
por trás deste olhar.

Ela me adora
          mas às vezes 
nem a mim deixa ficar.

Passamos muito tempo 
                     a sós
                          eu e ela
que têm gemidos e momentos
que admiro sem pressa
com o amor de quem tem 
             o veneno por dentro. 


Anita Coutinho 

Menina


MENINA 


Menina lenta 
conta mentiras 
conta tudo o que lembra 
o que falta, inventa. 

Seu ponteiro 
nunca passa das três 
e cada erro feito 
é uma folha arrancada 
mais uma vez. 

Menina lenta 
tem vertigem se apressar 
não pode com os erros que fez 
perdeu, largou, se desfez 
mas isso não a deixou leve 
nem meiga 
nem ocre

nem sei.


Ela foi embora lenta 
e breve 
silente e sorridente 
como quem descansa 

e escreve 
adormece subitamente 
como quem foge

como quem persegue. 








Anita Coutinho

(*)


(*) 

O que você quer me dizer 
com esse cheiro de limão 
pousado nas mãos 
                      ou mar 
                         que ondula 
este seu cabelo comprido 
que cai sobre seus ombros 
                    que cai sobre mim? 

O que você quer dizer 
se fazendo sério demais 
mas sempre sorrindo quando está comigo 
dizendo com todas as letras : ‘eu não ligo’ ?

O que você quer dizer 
sem me mostrar onde colocar as interrogações 
se despindo 
de minhas interpretações ?

O que você quer 
com esta voz de quem recita 
esta cor de cidreira aflita 
                 esta conversa que excita 
querendo parecer manso demais 
                     correndo atrás 
                     sem mim 
                sem mar 
       sem mais?

O que você quer dizer 
               que não diz 
                         diretamente 
e me deixa tentando entender 
parecendo criança 
                        ou demente 
sem saber 



O que você quer dizer 
quando pede pra eu enlouquecer 
                       querer 
fazer tudo o que você vai dizer 
soprado assim junto do ouvido 
                              baixo demais
no abraço que você me dá 
                                    por trás 
para ninguém ler nos seus lábios 
o que você diz oculto sob meus cabelos 
                                   segredo 
                       que eu entendo 
                      e deixo 
               você dizer 
             você fazer 
o que quiser. 

(*) o título você não quis me dizer. 


Anita de S. Coutinho 

Rascunho

RASCUNHO 


Estava esperando você chegar 
                        fez tanto silêncio 
que o ato de tanto buscar 
fez cascalho do pouco 
                      que chegou 
           aos poucos 
sequer me cumprimentou 
                    não custava avisar 
que eu não precisava mais buscar. 

O verso continuo errado. 
                  Insisti no tema 
enquanto todo o poema 
devia ter sido apagado. 




Anita Coutinho 
(Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 1999) 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Atraso


ATRASO 


Te espero no centro 
De mais uma cidade 
Cheia de ritmo 
Você se atrasa mais uma vez.; 
Eu passo sua frente 
Novamente. 

Te digo adeus 
Sem notar os porquês.; 
Você sequer avisa 
Que eu cheguei 
Ou que você saiu. 
E agora é hora 
De baixar os olhos 
De deixar o sol cair. 

Eu me atraso desta vez 
Quem se confunde 
Talvez seja sempre eu. 
Quem sabe errei o lugar? 

Talvez eu te ligue ao amanhecer 
Talvez 
Eu nem te olhe quando você chegar.

A cidade se atrasa agora 
Perdeu a hora 
Não foi por maldade 
E ela nos olha e chove.; 
Ou chora? 

Todos, tantos 
Passam de ponta a ponta 
Silhuetas que se intercalam 
Entre os sinais de trânsito.; 
Com as suas passadas 
Passo a passo.; 
Na regra de seguir adiante. 
Falam demais... 
E passam como se quisessem 
Atingir o imaginário. 

Você se atrasa ainda 
E descrevo um anônimo... 
Ele me observa sem notar 
Que palavras estão ao redor. 


A cidade nos chora um pouco 
A chuva aumenta 
Desanimada pelo seu atraso 
Ou pela minha hora, 
Talvez por mais este verso 
Que inunda o papel vazio... 


O lugar não está errado 
Mas o atraso 
Sempre estará atrasado.; 
Mesmo que eu tivesse 
Mentindo 
Desde o poema ter começado. 

O lugar marcou sorrisos 
Briga, perda, vitória. 
Guardou as flores que foram trazidas 
E entregues para ela. 
Guardou tantos versos 
Criados aqui. 

Agora 
O lugar é atraso! 
Jamais estive longe daqui 
E ainda vivo 
Nas reminiscências das flores 
Que vieram junto de ti. 

O atraso paira no ar 
Chega por aqui 
Eu me despeço 
Sem pressa 
Esquecendo tudo 
E todos os versos que escrevi. 


Anita de S. C. 
Rio de Janeiro 05 de Outubro de 1999 

sábado, 24 de fevereiro de 2018

BEM FEITO!


Hand Holding a Joint or Cigarette with an Eye - Tattoos Vectors


Bem-feito!

Não tem segredo
debaixo do seu nome
que bote razão
naquela mentira
que você escondeu
e nem cabia na mão.

Guardou em silêncio
          um erro.

Pediu conselho do segredo
que queria como segredo

Fez tanta cena
que derrubou a rima
que queimou a língua
e cortou o dedo.

Anita Coutinho

Descuido

Gastei tanto com você
meu tempo                      
meu corpo                            
meu passo                                  
meu ouro.                                       

Cedi um pouco 
do que trago comigo,     
"Ela que vive com a cabeça na lua, música no ouvido e coração na boca"
tentei ouvir            
tentei esperar;
te convidei
te vi mudar
te vi chegar;
te vi ser          
seu próprio inimigo.

Desculpe eu ser aquela                                 
 que sobreviveu                               
mas acontece                         
que diante de qualquer perigo
eu vou embora
levando apenas               
o que já tinha comigo,
o que tenho agora. 



Anita Coutinho
2009

Pistas

Resultado de imagem para um punhado de

PISTAS



Você me trouxe uma dúvida 
e um punhado de pedras amarelas
que eu não tinha onde guardar.

Me deixou um coringa na calçada
para jogar
com as palavras.
Quis me ensinar
a ganhar
e a não dizer mais nada.

Resultado de imagem para coringa baralho


Quando ganhei doces de longe
vieram sabores antigos
de onde moram tantos amigos.

Sinto saudades
mas entendo que tenham ido.

Outro dia você me explicou 
que perder é bom
porque é o outro lado de quem ganhou;

E quando tropecei
no dois de ouros
aprendi que somo em dobro
cada abraço que me abraçou.



Seu olhar tem 
o mesmo peso do som
dos passos de quem vai chegar.

Imagem relacionadaEstá me ensinando a ficar

Está me ensinando a esperar... 

Serão três luas sérias
até a hora de trocar.

Vai mudar o tempo
vou olhar para o lado
vai gritar meu nome
vou deixar chegar.






Anita Coutinho

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Guardião

No dia que fui
deixar sementes
no verde do jardim
perto da água corrente
foi eu quem ganhou o presente:
Você veio me visitar
oculto entre as folhas do lugar
me cuidou e me ensinou 
a olhar.

Me deu uma flor amarela
para eu lembrar
que também sou ela.

Me viu molhar os pés
na água fria
que fluía e me trazia
folhas, marcas e vida,
luzes que não conhecia.


Vi ali você de guarda
enquanto eu aprendia.
Vivi ali a certeza
do dia
a clareza do sim
o presente do agora
tudo o que eu não tinha.

Fui embora distraída
sem nem agradecer 
a acolhida
só aprendi depois
como é tão séria a vida.




Escrevo agora
pequena e contida
estou agradecida
pelo dia que fui abraçada
pela cura da mata nativa.

Recebi amor puro
e mais uma lição de vida.

Ao fundo 
o voo da borboleta
chama para que eu veja
que você ainda me guarda
tão sério como guarda o mundo.



Anita Coutinho 
Dezembro 2017

sábado, 20 de janeiro de 2018

Minhas Mulheres


Resultado de imagem para ciganas e frutas

Vocês vão olhar para elas
que chegam coloridas
somando frutas
presentes
pães e segredos

Vão ver como são altas
desde a voz aos risos.

Os queixos
jogam para frente
além dos passos:
sonhos novos
velhos enredos.

Se as ver pela fotografia
poder-se-á
dizer: AH!
... É carnaval!


É?
É sim!
É carne pura
Feita nova!

E o aval
vem enfeitando o vento
Resultado de imagem para dança de roda dança circular
que elas trazem
com gestos
saias e leques
para virar o vendaval
que assobia a chegada
e a vontade delas
sobre a carne
renovada
pelo milagre da palavra.

É carnaval naquelas coxas
e naqueles copos
que elas enchem
quando querem
porque até encher
já deu,
já deram.

(Anita Coutinho )


Caminho


Resultado de imagem para quadro de deserto

Desde que vi que no vazio
Até o silencio faz eco
Aprendi sobre margens e desertos

Já faz tempo
Não tenho nada certo
Só meu centro e o que cai perto

Fique onde está
Só assim te alcanço melhor
Se vier para cá
Será ruim, será pior.

Desde que aprendi a deixar
Prefiro eu ir
a deixar chegar
Só porque assim
só eu sei como voltar.

(Anita Coutinho)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Filho Do Vento


.Resultado de imagem para O NOME DO VENTO

Eu não quero isso
Do passo preso
Desliso
Sou meu próprio peso

Sou meu segredo
Sou liso
E louco
Só me mexo
do meu modo solto
Pode ser hoje
Pode ser cedo
Não tenho medo.
Vou como for o caso
O tempo
O que deixo aceso.
Resultado de imagem para ciganoVejo o que quero
Do meu próprio erro
Mexo
Do meu jeito
Sou eu
Meu próprio feito
Sou filho do vento
Fundo e estreito.

Caminho distraído
Com a vontade da coragem.
Se acha que estou perdido
Não me conhece de verdade
E não sabe
Que só paro
Para me inspirar
Com mais uma paisagem.

Resultado de imagem para solto no vento
Meus passos
Não tem caminho;
A estrada é trovoada.
Sigo o vento
Em movimento
Não tenho parada.
Sou o momento,
Sou filho do vento
Solto na estrada.

(Anita Coutinho 11/2017)